Esta é a história de Gimpel:
Gimpel é um esforçado padeiro de um pequeno lugarejo judaico
no leste europeu. Ele é órfão, um tanto ingênuo e completamente inocente com
relação à capacidade dos seres humanos de serem cruéis uns com os outros. As
pessoas do lugar pregam peças nele o tempo todo, contando-lhe histórias
fantásticas e fingindo ficar ofendidas quando ele se demonstra cético. Elas
entram correndo na padaria, por exemplo, e dizem-lhe que o messias chegou,
ressuscitou os mortos e os pais dele, já falecidos, estão esperando por ele em
casa. Então, riem do padeiro quando este corre para casa à procura dos pais.
Gimpel
procura seu guia espiritual e ouve o seguinte: “É melhor ser um tolo todos os
dias do que ser uma pessoa má durante uma única hora. Você não é bobo. Os bobos
são os outros. Qualquer pessoa que faz seu semelhante sentir-se envergonhado
perde o direito ao seu lugar no outro mundo.” Gimpel sente-se confortado com
essas palavras, mas é ridicularizado até mesmo ali: quando estava deixando a
casa, a filha do rabino prega-lhe uma peça e ri da sua credulidade.
Os
anciãos da cidade convencem Gimpel a casar-se com uma mulher famosa pelo
espírito mesquinho e pela promiscuidade. Quatro meses depois, ela dá à luz um filho
e convence Gimpel de que ele não tem nenhuma razão para duvidar de que ele é o
pai da criança. Durante o casamento, ela o trai repetidamente. Quando ele a
pegava em flagrante, ela aproveitava-se da natureza crédula do marido para
convencê-lo de que não havia feito nada de errado. Em determinado momento,
Gimpel diz a si mesmo: “Qualquer outro homem teria ido embora, mas eu sou do
tipo que agüenta as coisas e não diz nada. Deus nos dá os fardos e nos dá
ombros para carregá-los.”
Anos
depois, sua esposa fica gravemente doente. No leito de morte, ela confessa:
“Tudo que sempre fiz na vida foi trair Gimpel e agora minha vida
acabou.”Obrigado a enfrentar a realidade de como fora tratado, Gimpel fica
estupefato. Ele começa a perguntar-se se agiu errado por ter seguido a
orientação do rabino, ou seja, mantendo-se honesto e confiando nas pessoas
apesar da desonestidade delas. Algumas noites depois da morte da mulher, Gimpel
tem um sonho no qual o impulso maligno sussura para ele: “O mundo inteiro te
enganou. É chegada a hora de você enganar o mundo. Não existe nenhum Deus, não
existe nenhum outro mundo. Eles o enrolaram direitinho.”Ao atentar para o fato
de que era o dono da única padaria da região e que todas as pessoas que o
haviam maltratado comiam seu pão, Gimpel planeja uma vingança. Ele acrescenta à
massa do pão uma mistura de lixo e excremento humano para envenenar as pessoas
que haviam rido à sua custa. Ele vai dormir decidido a acordar cedo para assar
aqueles pães especiais.
Naquela
noite, sua mulher aparece para ele em sonho, maltrapilha, o rosto enegrecido
pelo fogo, e lhe diz: “O fato de eu ter sido falsa torna tudo o mais falso? A
única pessoa que eu enganei fui eu mesma e agora estou pagando por isso.”
Gimpel acorda sentindo-se envergonhado com o que estava planejando fazer.
Compreendendo que não quer ser aquele tipo de pessoa, ele enterra a massa
contaminada e deixa a cidade. Então, passa o resto de seus dias vagando. Quando
já está velho e sente a morte se aproximar, Gimpel faz uma reflexão: “Seja o
que for que haja do outro lado, será real, sem zombaria, sem trapaças. Lá,
graças a Deus, nem mesmo Gimpel pode ser enganado.”
Gimpel
é um homem que tem muito pouco na vida; não possui riqueza, dotes intelectuais,
amigos nem mesmo uma vida normal em família. Contudo, ele tem uma certa
integridade ingênua, o que o torna mais rico do que seus semelhantes. Gimpel
não mente, embora eles mintam; não magoa outra pessoa, apesar de os outros não
hesitarem em feri-lo. No final, chegamos à conclusão de que o rabino estava
certo. As outras pessoas eram tolas e perderam o direito ao seu lugar no céu,
seja lá o que isso for, porque cometeram abuso contra outro ser humano.
Isaac Bashevis Singer
Sem mais nada a acrescentar, pensemos!

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