quinta-feira, 10 de outubro de 2013

GIMPEL E O GRANDE PARADOXO DA INGENUIDADE



Esta é a história de Gimpel:

                Gimpel é um esforçado padeiro de um pequeno lugarejo judaico no leste europeu. Ele é órfão, um tanto ingênuo e completamente inocente com relação à capacidade dos seres humanos de serem cruéis uns com os outros. As pessoas do lugar pregam peças nele o tempo todo, contando-lhe histórias fantásticas e fingindo ficar ofendidas quando ele se demonstra cético. Elas entram correndo na padaria, por exemplo, e dizem-lhe que o messias chegou, ressuscitou os mortos e os pais dele, já falecidos, estão esperando por ele em casa. Então, riem do padeiro quando este corre para casa à procura dos pais.
                Gimpel procura seu guia espiritual e ouve o seguinte: “É melhor ser um tolo todos os dias do que ser uma pessoa má durante uma única hora. Você não é bobo. Os bobos são os outros. Qualquer pessoa que faz seu semelhante sentir-se envergonhado perde o direito ao seu lugar no outro mundo.” Gimpel sente-se confortado com essas palavras, mas é ridicularizado até mesmo ali: quando estava deixando a casa, a filha do rabino prega-lhe uma peça e ri da sua credulidade.
                Os anciãos da cidade convencem Gimpel a casar-se com uma mulher famosa pelo espírito mesquinho e pela promiscuidade. Quatro meses depois, ela dá à luz um filho e convence Gimpel de que ele não tem nenhuma razão para duvidar de que ele é o pai da criança. Durante o casamento, ela o trai repetidamente. Quando ele a pegava em flagrante, ela aproveitava-se da natureza crédula do marido para convencê-lo de que não havia feito nada de errado. Em determinado momento, Gimpel diz a si mesmo: “Qualquer outro homem teria ido embora, mas eu sou do tipo que agüenta as coisas e não diz nada. Deus nos dá os fardos e nos dá ombros para carregá-los.”
                Anos depois, sua esposa fica gravemente doente. No leito de morte, ela confessa: “Tudo que sempre fiz na vida foi trair Gimpel e agora minha vida acabou.”Obrigado a enfrentar a realidade de como fora tratado, Gimpel fica estupefato. Ele começa a perguntar-se se agiu errado por ter seguido a orientação do rabino, ou seja, mantendo-se honesto e confiando nas pessoas apesar da desonestidade delas. Algumas noites depois da morte da mulher, Gimpel tem um sonho no qual o impulso maligno sussura para ele: “O mundo inteiro te enganou. É chegada a hora de você enganar o mundo. Não existe nenhum Deus, não existe nenhum outro mundo. Eles o enrolaram direitinho.”Ao atentar para o fato de que era o dono da única padaria da região e que todas as pessoas que o haviam maltratado comiam seu pão, Gimpel planeja uma vingança. Ele acrescenta à massa do pão uma mistura de lixo e excremento humano para envenenar as pessoas que haviam rido à sua custa. Ele vai dormir decidido a acordar cedo para assar aqueles pães especiais.
                Naquela noite, sua mulher aparece para ele em sonho, maltrapilha, o rosto enegrecido pelo fogo, e lhe diz: “O fato de eu ter sido falsa torna tudo o mais falso? A única pessoa que eu enganei fui eu mesma e agora estou pagando por isso.” Gimpel acorda sentindo-se envergonhado com o que estava planejando fazer. Compreendendo que não quer ser aquele tipo de pessoa, ele enterra a massa contaminada e deixa a cidade. Então, passa o resto de seus dias vagando. Quando já está velho e sente a morte se aproximar, Gimpel faz uma reflexão: “Seja o que for que haja do outro lado, será real, sem zombaria, sem trapaças. Lá, graças a Deus, nem mesmo Gimpel pode ser enganado.”
                Gimpel é um homem que tem muito pouco na vida; não possui riqueza, dotes intelectuais, amigos nem mesmo uma vida normal em família. Contudo, ele tem uma certa integridade ingênua, o que o torna mais rico do que seus semelhantes. Gimpel não mente, embora eles mintam; não magoa outra pessoa, apesar de os outros não hesitarem em feri-lo. No final, chegamos à conclusão de que o rabino estava certo. As outras pessoas eram tolas e perderam o direito ao seu lugar no céu, seja lá o que isso for, porque cometeram abuso contra outro ser humano. 

                   Isaac Bashevis Singer

Sem mais nada a acrescentar, pensemos!

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